\n'; document.write(barra); } } changePage();
Para aqueles que acreditam em religiões.. eh bom ler isso
aqui... trazer muitas dúvidas para vocês... Mas nada melhor do que duvidas para
acharmos o melhor para nós!
BOAS E MÁS RAZÕES PARA CRER
Richard Dawkins
(Do Livro: "As coisas são assim: pequeno repertório científico do mundo que nos cerca"- Org. Brockman, J. & Matson, K. Editora Companhia das Letras, 1997.)
Querida Juliet,
Agora que você fez dez anos, quero lhe escrever sobre algo que
é muito importante para mim. Você já se perguntou sobre como sabemos as coisas
que sabemos? Como sabemos, por exemplo, que as estrelas, que parecem pequenos
pontos no céu, são na verdade grandes bolas de fogo como o Sol e ficam muito
longe? E como sabemos que a Terra é uma bola menor, girando ao redor de uma
dessas estrelas, o Sol?
A resposta para essas perguntas é “provas”. Às vezes
“prova” significa realmente ver (ou ouvir, ou sentir, cheirar...) que algo é
verdade. Astronautas viajaram longe o suficiente da Terra para ver com seus
próprios olhos que ela é redonda. Às vezes nossos olhos precisam de ajuda. A
“estrela-d’alva” parece uma sutil cintilação no céu, mas com um telescópio você
pode ver que ela é uma linda bola - o planeta que chamamos de Vênus. Uma coisa
que você aprende diretamente vendo (ou ouvindo, ou cheirando...) é chamada de
observação.
Freqüentemente, a prova não é só uma observação por si só, mas há
sempre observações em sua base. Se aconteceu um assassinato, é comum ninguém
(menos o assassino e a pessoa morta!) ter visto o que aconteceu. Mas os
detetives juntam diversas observações que podem apontar na direção de um
suspeito. Se as impressões digitais de uma pessoa coincidirem com as encontradas
num punhal, isso é uma prova de que ela tocou nele. Isso não prova que ela
cometeu o assassinato, mas pode ser uma informação útil, junto com outras
provas. Às vezes um detetive consegue pensar sobre várias observações e então de
repente perceber que todas se encaixam e fazem sentido se fulano de tal cometeu
o crime.
Os cientistas - os especialistas em descobrir o que é verdade sobre
o mundo e o universo - freqüentemente trabalham como detetives. Eles dão um
palpite (chamado de hipótese) sobre o que talvez seja verdade. Depois dizem para
si mesmos: “Se isso realmente for verdade, devemos observar tal coisa”. Isso é
chamado de previsão. Por exemplo, se o mundo realmente for redondo, podemos
prever que um viajante que caminhar continuamente numa mesma direção acabará no
ponto de onde partiu. Quando um médico diz que você está com sarampo, ele não
olhou para você e viu sarampo. A sua primeira observação lhe fornece a hipótese
de que você talvez tenha sarampo. Então ele diz para si mesmo: se ela realmente
está com sarampo, devo encontrar... E ele então consulta sua lista de previsões
e testa-as usando seus olhos (você está com pintas?), mãos (sua testa está
quente?) e ouvidos (seu peito está com um chiado?). Só então ele toma a decisão
e diz: “Meu diagnóstico é que essa criança está com sarampo”. Às vezes, os
médicos precisam fazer outros testes, como exames de sangue ou raio X, que
ajudam seus olhos, mãos e ouvidos a fazer observações.
O modo como os
cientistas usam provas para aprender sobre o mundo é muito mais engenhoso e
complicado do que consigo dizer numa breve carta. Mas agora quero deixar de lado
as provas, que são uma boa razão para crer em algo, e alerta-la sobre três más
razões para acreditar em algo. Elas se chamam “tradição”, “autoridade” e
“revelação”.
Primeiro, a tradição. Alguns meses atrás, fui à televisão para
ter uma conversa com cerca de cinqüenta crianças. Essas crianças foram
convidadas por terem sido criadas segundo diferentes religiões: algumas como
cristãs, outras judias, mulçumanas, hindus ou sikhs. Um homem com um microfone
ia de criança em criança, perguntando no que acreditavam. O que elas responderam
mostra exatamente o que quero dizer com “tradição”. Suas crenças não tinham
nenhuma relação com provas. Elas simplesmente papagaiavam as crenças de seus
pais e avós que, por sua vez, também não eram baseadas em provas. Elas diziam
coisas como: “Nós, hindus, acreditamos em tal e tal”; “Nós, muçulmanos,
acreditamos nisso e naquilo”; “Nós, cristãos, acreditamos numa outra
coisa”.
Como todas acreditavam em coisas diferentes, nem todas poderiam estar
certas. O homem com o microfone parecia achar que isso não era um problema, e
nem tentou fazê-las discutir suas diferenças entre si. Mas não é isso que quero
enfatizar no momento. Eu simplesmente quero analisar de onde vieram as crenças.
Vieram da tradição. Tradição significa crenças passadas do avô para o pai, deste
para o filho, e assim por diante. Ou por meio de livros passados através das
gerações ao longo dos séculos. Crenças populares freqüentemente começam de quase
nada; talvez alguém simplesmente as invente, como as histórias sobre Thor e
Zeus. Mas depois de terem sido transmitidas por alguns séculos, o simples fato
de serem tão antigas as faz parecer especiais. As pessoas acreditam em coisas
simplesmente porque outras pessoas acreditaram nessas mesmas coisas ao longo dos
séculos. Isso é tradição.
O problema com a tradição é que, independentemente
de há quanto tempo a história tenha sido inventada, ela continua exatamente tão
verdadeira ou falsa quanto a história original. Se você inventar uma história
que não seja verdadeira, transmiti-la através de vários séculos não vai torná-la
verdadeira!
A maioria das pessoas na Inglaterra foi batizada pela Igreja
anglicana, mas esse é apenas um entre muitos ramos da religião cristã. Há outras
divisões, como a ortodoxa russa, a católica romana e as metodistas. Todas
acreditam em coisas diferentes. A religião judaica e a mulçumana são um pouco
diferentes; e há ainda diferentes tipos de judeus e mulçumanos. Pessoas que
acreditam em coisas um pouco diferentes umas das outras vão à guerra por causa
discordâncias. Então você talvez imagine que eles têm boas razões - provas -
para acreditar naquilo que acreditam. Mas, na realidade, suas diferentes crenças
são inteiramente decorrentes de tradições.
Vamos falar sobre uma tradição em
particular. Católicos romanos acreditam que Maria, a mãe de Jesus, era tão
especial que ela não morreu, mas acendeu ao Céu. Outras tradições cristãs
discordam, e dizem que Maria morreu como qualquer pessoa. Outras religiões não
falam muito nela e, de modo diferente dos católicos romanos, não a chamam de
“Rainha do Céu”. A tradição segundo a qual o corpo e Maria foi levado ao Céu não
é muito antiga. A Bíblia não diz nada sobre como ou quando ela nasceu; aliás, a
pobre mulher mal é mencionada na Bíblia. A crença de que seu corpo foi levado ao
Céu não foi inventada até cerca de seis séculos após a época de Jesus. No
início, só foi inventada, da mesma forma que qualquer história, como “Branca de
Neve”. Mas, no transcorrer dos séculos, ela se tornou uma tradição e as pessoas
começaram a levá-la a sério simplesmente porque a história havia sido
transmitida ao longo de tantas gerações. Quanto mais velha a tradição se
tornava, mais as pessoas a levavam a sério. Ela foi por fim escrita como uma
crença católica romana oficial muito recentemente, em 1950, quando eu tinha a
idade que você tem hoje. Mas a história não era mais verdadeira em 1950 do que
quando foi inventada, seiscentos anos após a morte de Maria.
Vou voltar à
tradição no fim de minha carta, e olhá-la de outro modo. Mas antes preciso
tratar das outras duas más razões para crer em alguma coisa: autoridade e
revelação.
Autoridade enquanto razão para crer em algo significa acreditar
pois alguém importante ordenou que você acreditasse. Na Igreja católica romana,
o para é a pessoa mais importante, e as pessoas acreditam que ele deve estar
certo só porque ele é o papa. Num dos ramos da religião muçulmana, as pessoas
importantes são velhos barbados chamados de aiatolás. Muitos muçulmanos se
dispõem a cometer assassinatos simplesmente porque aiatolás de um país distante
deram essa ordem.
Quando digo que só em 1950 os católicos romanos foram
finalmente informados que tinham que acreditar que o corpo de Maria havia subido
para o Céu, quero dizer que em 1950 o papa disse que isso era verdade, e então
tinha que ser verdade! É claro que algumas coisas que o papa disse ao longo de
sua vida devem ser verdade e outras não. Não há nenhuma boa razão para você
acreditar em tudo que ele diz mais do que você haveria de acreditar nas coisas
que muitas outras pessoas dizem, só porque ele é o papa. O papa atual ordenou às
pessoas que não controlasse o número de filhos que vão ter. se sua autoridade
for seguida com a obediência que ele deseja, os resultados poderão ser uma
terrível escassez de alimentos, doenças e guerras, causas por
superpopulação.
É claro que, mesmo na ciência, às vezes nós mesmos não vemos
as provas e temos de acreditar no que foi dito por outra pessoa. Eu não vi, com
os meus próprios olhos, que a luz viaja à velocidade de 300 mil quilômetros por
segundo. Mas acredito em livros que me dizem qual a velocidade da luz. Isso
parece “autoridade”. Mas na realidade é muito melhor que autoridade, porque as
pessoas que escreveram o livro viram as provas, e qualquer um de nós pode
examinar as provas com atenção no momento que quiser. Isso é muito confortante.
Mas nem mesmo os padres afirmam que há provas para a história de que o corpo de
Maria subiu para o Céu.
A terceira má razão para acreditar em algo é
“revelação”. Se você tivesse perguntado ao papa, em 1950, como ele sabia que o
corpo de Maria tinha subido ao Céu, ele provavelmente teria dito que isso lhe
fora revelado. Ele se fechou num quarto e rezou., pedindo orientação. Sozinho,
ele pensou e pensou, e na sua intimidade teve mais e mais certeza de suas
idéias. Quando pessoas religiosas têm uma simples sensação de que algo deve ser
verdade, mesmo que não haja provas de que o seja, eles chamam sua sensação de
“revelação”. Não só os papas afirmam ter revelações. Isso também acontece com
muitas pessoas religiosas. É uma de suas principais razões para acreditar
naquilo que acreditam. Mas isso é bom ou ruim?
Suponha que eu lhe dissesse
que seu cachorro está morto. Você provavelmente ficaria muito triste, e talvez
dissesse: “Você tem certeza? Como você sabe? Como aconteceu?”. Suponha então que
eu respondesse: “Na verdade, eu não sei se Pepe está morto. Eu não tenho provas.
Só tenho uma sensação esquisita, bem dentro de mim, de que ele está morto”. Você
ficaria muito zangada comigo por tê-la assustado, porque você sabe que uma
“sensação” por si só não é uma boa razão para acreditar que um cachorro está
morto. Você precisa de provas. Todos temos sensações e pressentimentos de tempos
em tempos, e descobrimos que às vezes estavam certos, às vezes não. De qualquer
forma, pessoas diferentes podem ter sensações opostas, então como decidir quem
teve a intuição correta? O único jeito de ter certeza de que um cachorro está
morto é vê-lo morto, ou ouvir que seu coração parou de bater, ou obter essa
informação de uma pessoa que viu ou ouviu alguma prova de que ele está
morto.
As pessoas às vezes dizem que devemos acreditar em sensações íntimas,
senão você nunca teria certeza de coisas como “Minha esposa me ama”. Mas esse é
um argumento ruim. Pode haver muitas provas de que alguém ama você. Durante todo
o dia em que você está com alguém que a ama, você vê e ouve pequenas provas, e
elas se somam. Não é somente ma sensação interior, como a sensação que os padres
chamam de revelação. Há outras coisas para apoiar a intuição: olhares, um tom
carinhoso de voz, pequenos favores e gentilezas; tudo isso serve de
prova.
Certas pessoas têm forte sensação de que alguém as ama sem que isso
esteja baseado em provas, e então é provável que estejam completamente
enganadas. Há pessoas com uma forte intuição de que um astro do cinema está
apaixonado por elas, mas na realidade o astro de cinema nem sequer as encontrou.
Pessoas assim são doentes da cabeça. Sensações íntimas ou intuições precisam ser
apoiadas por provas, senão você simplesmente não pode confiar nelas.
As
intuições são valiosas na ciência também, mas só para lhe dar idéias que você
então testa, procurando provas. Um cientista pode ter um “pressentimento” sobre
uma idéia que ele “sente” estar correta. Por si só, isso não é uma boa razão
para acreditar nela. Mas pode ser uma razão para passar algum tempo fazendo
experimentos, ou à busca de provas. Cientistas usam a intuição o tempo todo para
ter idéias. Mas elas não valem nada até que sejam apoiadas por provas.
Eu
prometi que voltaria à tradição, para examiná-la de outro modo. Quero explicar o
que a tradição é tão importante para nós. Todos os animais são construídos (pelo
processo chamado de evolução) para sobreviver no local em que seus semelhantes
vivem. Leões são construídos para sobre sobreviver nas planícies da África. O
lagostim é construído para sobreviver na água doce, enquanto as lagosta são
adaptadas para a vida na água salgada. As pessoas também são animais, e somos
construído nos para viver bem no mundo cheio de... outras pessoas. A maioria de
nós não caça para obter comida, como as lagostas ou os leões; nós a compramos de
pessoas que, por sua vez, a compram de outras pessoas. Nossas entre " nadamos"
num "mar de pessoas". Assim como um peixe precisa das brânquias para sobreviver
na água, as pessoas precisam do cérebro que as torna capazes de se relacionarem
umas com as outras. Assim como o mar está cheio de água salgada, o mar de
pessoas está cheio de coisas difíceis de aprender. Como a linguagem.
Você
fala inglês, mas sua amiga Ann-Kathrin fala alemão. Cada um de vocês falam a
língua que lhes permiti "nadar" no seu "mar de pessoas". A linguagem é
transmitida por tradição. Não há outra alternativa. Na Inglaterra, Pepe é um
dog. Na Alemanha, ele é ein Hund. Nenhuma dessas palavras é mais correta ou
verdadeira do que a outra. As duas foram transmitidas ao longo do tempo, só
isso. Para serem boas em "nadar no seu mar de pessoas", as crianças têm que
aprender a língua de seu país, e muitas outras coisas sobre se o seu povo; e só
quer dizer que elas precisam absorver, como papel mata-borrão, uma enorme
quantidade de informações sobre tradições (lembre que essas informações são
aquelas passadas dos avós para pais e deste para filhos). O cérebro da criança
tem que absorver informações sobre tradições. Não é de se esperar que a criança
consiga separar a informação boa e útil, como as palavras de uma língua, das
informações ruins e tolas como acreditar em bruxas, demônios e virgens
imortais.
É uma pena - mas não deixa de ser assim - que, por serem sugadoras
da informação sobre tradições, as crianças possam acreditar em qualquer coisa
que os adultos lhes digam. Não importa se seja falso ou verdadeiro, certo ou
errado. Muito do que os adultos dizem é verdadeiro e baseado em provas, ou pelo
menos sensato. Mas se parte do que é dito é falso, tolo ou até malvado, não há
nada para impedir as crianças de acreditarem naquilo também. E quando as
crianças crescerem o que farão? Bom, é claro que contarão as histórias para a
próxima geração de crianças. Então, uma vez que uma idéia se torna uma crença
arraigada - mesmo que seja completamente falsa e nunca tenha havido uma razão
para acreditar nela -, pode durar para sempre.
Será isso o que aconteceu com
as religiões? A crença de que há um Deus ou deuses, crença no Céu, crença em que
Maria nunca morreu, que Jesus nunca possuiu um pai humano, que as rezas são
respondidas, que vinho se torna sangue - nenhuma dessas crenças é apoiada por
boas provas. E no entanto milhões de pessoas acreditam nelas. Talvez isso ocorra
porque elas foram levadas a acreditar nessas coisas quando eram tão jovens que
aceitavam qualquer coisa.
Milhões de pessoas acreditam em coisas bem
diferentes, porque diferentes coisas lhes foram ensinadas quando eram crianças.
Coisas diferentes são ditas para crianças muçulmanas e cristãs, e ambas crescem
totalmente convencidas de que estão certas e as outras erradas. Mesmo entre
cristãos, católicos romanos acreditam em coisas diferentes dos anglicanos ou de
pessoas como os shakers [adeptos da Igreja milênio] ou quacres, mórmons ou Holy
Rolers, e todos estão plenamente convencidos de que estão certos e os outros
errados. Acreditam em coisas diferentes exatamente pela mesma razão que você
fala inglês e Ann-Kathrin fala alemão. Ambas as línguas são, em seu próprio
país, a língua certa para se falar. Mas não pode ser verdade que religiões
diferentes estão corretas em seus próprios países, pois religiões diferentes
afirmam que coisas opostas são verdadeiras. Maria não pode estar viva na Irlanda
do Sul (um país católico) e morta na Irlanda do Norte (que é protestante).
O
que podemos fazer sobre tudo isso? Não é fácil para você fazer alguma coisa,
porque você só tem dez anos. Mas você pode tentar o seguinte. Da próxima vez que
alguém lhe disser algo que parecer importante, pense: “Será que isso é o tipo de
coisa que as pessoas sabem por causa de provas? Ou será o tipo de coisa em que
as pessoas acreditam só por causa de tradição, autoridade ou revelação?”. E, da
próxima vez que alguém lhe disser que uma coisa é verdade, por que não
perguntar: “Que tipo de prova há para isso?”. E, se ela não puder lhe dar uma
boa resposta, eu espero que você pense com muito carinho antes de acreditar em
qualquer palavra daquilo que foi dito.
De seu
querido
Papai